segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Retrato de guerra

desfastio de Ares





Eles saem para passear a noite.
Os fantasmas das florestas, das rodovias, das pontes, das ruelas etruscas, dos campos de guerra, das trincheiras, da senzala, da Alemanha, Rússia, China, de Esparta, de Tróia, da Terra Média, do fundo do mar, de trás das nuvens, dos meus ancestrais, das casas, das mentes, das memórias de cada um.

Índios, escravos, judeus. As mulheres de Atenas.
Cada ser que já pisou nessa terra regada a sangue carrega, ainda intrínseco à si, alguma dor.
Qualquer que seja, quaisquer que sejam.
Dores físicas, extra físicas, psíquicas.
A perda de um amigo, uma mãe, um pai, um filho, um amor, 
ou ainda, a perda de si.

A dor de um corte, um tiro, um açoite, fogo na carne, gelo no sangue ou no peito, de um amor perdido, não respondido, nunca sentido, não esquecido. 
De cada abandono, desprezo, humilhação e hostilidade, 
De cada sofrimento assistido
de uma memória que te assola a alma.

As lágrimas já derramadas por cada criatura já vivida, 
renderiam um oceano inteiro.

Um retrato mostra os olhos, mas o que esses olhos guardam? O que eles já viram?

Um retrato realista? 
Dorian Gray


Eles saem para passear a noite, 
caminham sob a luz da lua, ou sob luz nenhuma. 
Faça estrelas, faça chuva. 
Eles dançam na escuridão e você sabe disso, você sente cada movimento, e eles sabem onde você está, sabem onde te encontrar. 
Sabem como machucar, cortar, sangrar, perturbar, adoecer.
Eles sabem te deixar no chão.
Conquanto não se preocupe, eles não sabem como matar. 
Mas eles sabem te afundar tão baixo 
que você mesmo seria capaz de fazê-lo.