sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Fragmento

Aqui estou, aqui estamos. 
Nessa busca incessante por algo que nem sabemos se algum dia iremos encontrar.
O porque da felicidade ser um objetivo de vida, é uma coisa elementar.
O motivo de não nos darmos conta de que talvez ela não passe de uma ilusão a qual nunca alcançaremos, somente em pequenas doses nas quais nos agarramos desesperadamente.

Isso sim é peculiar.

É como provar amostras grátis de um produto incrível sem nunca encontrar o produto em si para comprar.
Matamos e morremos por isso.
Vivemos por isso.

Então se vivemos por uma ilusão, seria a nossa vida também nada além de uma ilusão?
Construída sobre os corpos e o sangue que a vida derrama sobre a terra.
E um dia, seremos tijolos na construção.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Essa tempestade forte que me incita o instinto

Essa chuva me embala, e me leva inconscientemente. 
Antes que eu perceba, já é tarde demais, estou absorta na leitura dos textos de Bukowski, ou agarrada à caneta e ao papel deixando as palavras tomarem conta de mim enquanto eu tomo conta delas.
Esse som de chuva, chuvisco, temporal, atemporal.
Parece durar eternamente.
E eu sou grata por isso.
A energia falhou, e somente me ilumina o corpo nu a luz cálida e tímida de uma vela velha, perdida e achada na terceira gaveta da cômoda empoeirada, em frente a qual concebo agora.
Nesse sábado a noite, 
deve ter algo errado comigo.
Deveria ter percebido quando escrevi um livro inteiro, e apaguei. 
Ou muito antes disso.
Na verdade acho que eu sempre soube.
Mas tudo bem.
Tudo bem.
Ela continua a me chamar, cada vez mais perto,
E então as amarras que me seguram se soltam, e eu corro assim como estou em direção às gotas frias da chuva.
No mais puro instinto.
As gotas são frias, mas tão sublimes que são incapazes de causar qualquer desconforto.
Então eu caminho descalça e despida na chuva fria que cai sobre a minha pele quente mas não tão quente assim,
E danço enquanto sinto minha alma saltar e se libertar
Nada mais vai lhe prender, digo à ela,
E tudo bem.
Tudo bem.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cari Abaçaí

Nós sabemos o que nos faria bem,
sabemos bem.
Mas desde o período do homem sobre os bichos, do homem sobre a mata
do homem sobre o homem
desde que nossos antepassados foram arrancados de suas terras e escravizados,
desde que correr nu e descalço se tornou uma ofensa contra a ridícula
moral europeia
e o respeito à mãe Terra se torno tão dispensável quanto o amor é hoje.
(considerando que antes disso fosse, ao menos, um pouco diferente)
não temos a menor chance contra o mundo,
contra essa realidade dura que nos molda porque não somos tão duros quanto ela.
e ser moldado não é fácil,
é doloroso
ríspido
intragável
inevitável
O mais fraco sucumbe, e
nesse caso
somos
nós.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Venha comigo fazer algo mesmo que não seja novo

Crie algo hoje, mesmo que seja uma droga.
Eu li isso hoje e me deixou em dúvida.
Eu já criei tantas coisas menos ou mais importantes, mas todos os dias temos que criar mais.
O que nos cerca nessa rua vazia com essa luz que pisca porque deve estar com algum defeito.
E me encontro no escuro agora, somente a lua a me iluminar, e eu poderia dançar no escuro sob a luz da lua, mas continuo deitada nessa terra fria e ao mesmo tempo tão aconchegante.
Quando eu era criança passava mais tempo em cima de árvores do que dentro de casa. Eu poderia subir em uma árvore, mas mantenho meus pés bem firmes no chão.
Quando é que eu vou subir em árvores de novo?

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Trânsito. Trânsito. Trânsito
Placas. Placas. Placas.
No trânsito temos placas que nos dizem quais direções tomar e quais não tomar e o que fazer ou deixar de fazer
Mas mesmo assim causamos acidentes no trânsito.
E na nossa vida, que não tem placas que nos guiam?
Nós humanos tivemos alguma chance desde o início?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Nem sempre ficamos com os amores de nossas vidas. 
E dói, sabia?
Dói e sufoca como se tivesse uma criança gorda sentada no nosso peito. 
Quando você encontra algo que encaixa em você melhor do se seu suéter favorito, aquela pessoa que faz com que você passe por cima de todas as suas dúvidas e tenha certeza com os olhos fechados. Quando por algum motivo ocorre uma falha e as coisas começam a desmoronar, 
dói. 
Dói pelo passado de memórias intrínsecas em nossas mentes, 
dói pelo presente que nos corta e sangra, 
mas dói mais ainda pelo futuro de promessas e planos e ideias que não poderão ultrapassar a barreira do mundo ideal para o mundo real, ficando presas como memórias inexistentes de um futuro desencantador. 

Dói por tudo que ainda não foi vivido. 
Dói por deixar escapar como areia seca entre os dedos uma felicidade tão plena que é quase inacreditável. 
Dói pelo medo de nunca conseguir deixar para trás, medo dessas memórias nunca encontrarem conforto se não algum alívio nas pequenas brechas da poesia. 
E eu digo, você é minha memória inconsolável, feita de pedra e sombra, é daí que tudo nasce, e dança.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Palavras ao vento

Vamos correr e andar como se nada mais houvesse nesse mundo que estala como lenha na fogueira.
Então me diga, o que haveremos de fazer, o que nós podemos fazer, o que fazemos além de falar e gritar como a madeira estalando no fogo alto que queima rápido, e queima até virar cinza.
Assim como as nossas palavras viram cinzas,
Assim como nós somos grãos de areia espalhados em ventania,
seria natural, então, que nossas palavras não passassem de pó,
Pó tóxico que a realidade assopra na nossa cara.
Que nos arde os olhos,
Que nos intoxica os pulmões,
Que nos consome a carne.