terça-feira, 21 de março de 2017

Pasárgada

Vamo-nos embora para Pasárgada, então.
Se me permitir ser tua companhia, me aprumarei pra fazer alegria.
Podemos encontrar um lugar bem bonito,
fazer um ninho,
virar passarinho,
voar pelo céu.
Mas já que você tem medo de altura, podemos virar outra coisa,
nadar sob as águas ou andar sobre a terra.
Ou continuar assim e fazer os três. Mas só olhar para o céu.
Ver o pôr e o nascer do sol,
as estrelas e a lua
sob o nosso céu. 
Sobre a nossa terra, 
ou a nossa água

E se toda obra de arte é uma imitação da natureza, você é certamente a coisa mais próxima dela.



sábado, 11 de março de 2017

Cidade das luzes

Pela fresta da cortina, nas luzes da cidade,
prédios,
casas,
apartamentos,
bares,
restaurantes.
as luzes acendem e
apagam,
enquanto as pessoas entram e
saem.
A pior parte de morar na cidade é não conseguir ver as estrelas,
e a absurda impossibilidade de se
encontrar um bosque seguro e agradável.
Não,
a pior parte é aquela onde as luzes não se
acendem e se
apagam,
onde as pessoas não
entram,
comem
bebem e
saem,
nos becos escuros onde
brilha e dança uma flor vermelha,
pobres moribundos tentam aquecer as
mãos para evitar que seus membros padeçam,
se encolhem nos cantos em busca de abrigo do frio,
mas alguns dias não são de tanta sorte,
e quando chove, a água leva consigo a singela chama,
e com ela a última esperança de uma
noite cálida.
Mas lá em cima as luzes continuam
acendendo e
apagando,
e as pessoas,
entrando e
saindo.
E ninguém percebeu o fogo se
apagando.
e nunca mais
acendendo.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Garotas calmas e limpas em vestidos de algodão

Sempre conheci pessoas problemáticas, loucas e abusivas
vejo homens com mulheres calmas e
gentis - vejo-os caminhando juntos na rua,
sentados no banco de uma praça qualquer
demonstrando felicidade plena e paz,
sei que essa paz
é apenas parcial, superficial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.
com intervalos imensos de uma busca incessante pela felicidade em uma vida que tem sempre dois caminhos. Nem sempre algum dos dois caminhos leva fim esperado, desejado. 
Mas é o que dizem, a caminhada, por vezes, propicia mais que o próprio fim.


Sempre conheci pessoas mentirosas, manipuladoras, egoístas e negativas
que se alternam frequentemente:

quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.

vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em  
vestidos de algodão.

garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras. 
Que não querem arrancar nada de ninguém. 
Que não querem ferir ninguém.
"nunca traga uma pessoa problemática junto com você", eu digo para meus

poucos amigos, "eu me apaixonarei por ela."
"você não consegue suportar uma boa pessoa, Leticia".


Preciso de uma boa mulher. Preciso de uma boa mulher.

mais mais do que da música que me sonda os ouvidos e me tira de mim. mais do que da escuridão que me embala ou da luz que me acalenta. 
Mais do que escrever. Mais do que rodopiar no bosque ou fazer estrelas

e eu a tenho, e posso senti-la
na ponta dos dedos, enquanto ela toca piano no meu corpo
e eu consigo ouvir cada nota tocada dessa melodia
posso sentir seus loopings verterem por meus dedos
posso vê-la lendo minha poesia
posso sentir seu olhar sobre o meu e sobre mim
enquanto eu durmo acalentada em seu peito
posso vê-la observando nosso céu
posso vê-la dormir, enquanto eu canto para lhe afastar os pesadelos,
Posso ouvi-la quando me chama para deitar do seu lado, quando canta pr'eu me acalmar, ou quando liga só pra dizer "Você é o amor da minha existência, vou te casar comigo, te amo, minha vida"
posso ver tuas roupas no chão, e sua também busca pela paz e pela felicidade


eu sei que ela existe, porque eu a tenho

Caso contrário, não sei se acreditaria.
Mas por vezes me pego pensando, até quando a terei
até quando permanecerei,
Enquanto seu passado continua presente.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

"For us, eating and being eaten belong to the terrible secret of love. We love only the person we can eat. The person we hate we ‘can’t swallow.’ That one makes us vomit. Even our friends are inedible. If we were asked to dig into our friend’s flesh we would be disgusted. The person we love we dream only of eating. That is, we slide down that razor’s edge of ambivalence.
The story of torment itself is a very beautiful one. Because loving is wanting and being able to eat up and yet to stop at the boundary. And there, at the tiniest beat between springing and stopping, in rushes fear. The spring is already in mid-air. The heart stops. The heart takes off again. Everything in love is oriented towards this absorption.

At the same time real love is a don’t-touch, yet still an almost-touching. Tact itself: a phantom touching.


Eat me up, my love, or else I’m going to eat you up.


Fear of eating, fear of the edible, fear on the part of the one of them who feels loved, desired, who wants to be loved, desired, who desires to be desired, who knows there is no greater proof of love than the other’s appetite, who is dying to be eaten up, who says or doesn’t say, but who signifies: I beg you, eat me up. Want me down to the marrow. And yet manage it so as to keep me alive. But I often turn about or compromise, because I know that you won’t eat me up, in the end, and I urge you: bite me.


Sign my death with your teeth"


- H.C.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O que nós sabemos

Mas eu só quero beber e andar enquanto sinto minha alma que sangra e deixa rastros por onde eu passo.
E eu corro tentando fugir desse peso que me assombra mas não consigo empurrá-lo para longe.
O tempo corre e está prestes a se esgotar enquanto a realidade nos ata as mãos e os pés. É como correr debaixo d'água. Em uma corrida comprada.
Qual o sentido de correr se o resultado já está determinado?
Se o carrasco já prendeu a respiração, só podemos aguardar.
Queria dormir, dormir por quatro ou cinco anos ininterruptos, mas eles não nos permitem, isso eles não nos permitem.
E a minha respiração também está presa em expectativa, corremos e fugimos em um labirinto sem saída. Ajoelhamos e oramos para algo transcendental que nem sabemos se existe. Deitamos e choramos por uma realidade dura e fria.
Mas disso sabemos,
pelo menos isso nós sabemos.
Acho que preferia não saber.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Queimem as Bruxas..

e nós vos queimaremos de volta

Minhas ancestrais sussuram.
Somos todas bruxas. Perseguidas, caçadas, torturadas, queimadas.
Nós que, por sermos diferentes, atentávamos contra o padrão transcendental exigido.
Nós que ameaçavamos seu sistema de abusos, absurdos e domínio sobre tudo e todos.
Mas não sobre nós.
Nunca sobre nós.
E ainda hoje nos caçam e nos queimam em fogueiras, de forma mais ou menos literal.
Mas a essência é a mesma. Ela não muda, nunca mudou.
Nós somos as bruxas do passado do presente e seremos do futuro. Porque não nos curvaremos perante eles. Nossas antepassadas não o fizeram, e nós honraremos sua memória. Seremos queimadas nas mais diversas fogueiras por sermos quem somos. Seremos perseguidas por não nos submetermos. Mas nos reergueremos. 
Lutaremos juntas.
Lutaremos até o fim.