sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Lady Lazarus

Eu fiz outra vez.
Um ano em cada dez
Eu dou um jeito —
 
Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha feito abajur nazista,
Meu pé direito

Peso de papel,
Meu rosto inexpressivo, fino
Linho judeu.

Dispa o pano
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo? —

O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda?
O hálito amargo
Desaparece num dia.

Em muito breve a carne
Que a caverna carcomeu vai estar
Em casa, em mim.

E eu uma mulher sempre sorrindo.
Tenho apenas vinte e tantos anos.
E como o gato, nove vidas para morrer.

Logo chega a Número Três.
Que besteira
Aniquilar-se a cada década.

Um milhão de filamentos.
A multidão, comendo amendoim,
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e pés —
O grande striptease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

No entanto sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos na primeira vez.
Foi acidente.

Na segunda quis
Ir até o fim e nunca mais voltar.
Oscilei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram que chamar e chamar
E tirar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Desse jeito faço parecer infernal.
Desse jeito faço parecer real.
Vão dizer que tenho vocação.

E muito fácil fazer isso numa cela.
É muito fácil fazer isso e ficar nela.
É o teatral

Regresso em plena luz do sol
Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito
Aflito e brutal:

“Milagre!”
Que me deixa mal.
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração —
Ele bate, afinal.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou cada toque
Ou mancha de sangue
Ou um pedaço de meu cabelo ou de minhas roupas.

Me fundo num grito.
Me viro e carbonizo.
Não pense que subestimo sua grande preocupação.

Cinza, cinza —
Você fuça e atiça.
Carne, osso, não há mais nada ali —

Saída das cinzas
Me levanto com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Sussurro de memória

Nós nos esquecemos de quem somos,
Nós nos desconectamos do Universo em sua supremacia
Nós nos tornamos estranhos aos movimentos da terra,
Nós pensamos que podíamos ignorar os ciclos da vida.

Nós nos esquecemos de quem somos.

Nós ambicionamos apenas sanar nossas próprias necessidades
Nós exploramos sem reaver as consequências meramente para saciar nossos desejos medíocres
Nós deturpamos o conhecimento
Nós nos prevalecemos pelo poder

Nós nos esquecemos de quem somos.

Nós regamos a floresta com seu próprio sangue
Nós matamos e destruímos por desenfado
Nós criamos nossas crianças desprovidas de memória
Nós ignoramos as necessidades arraigadas de tudo o que há

Nós nos esquecemos de quem somos.

Agora a terra é estéril,
as águas estão envenenadas,
E o ar está poluído.

Nós nos esquecemos de quem somos.

Agora, as florestas estão morrendo,
As criaturas estão desaparecendo,
Nós humanos estamos sofrendo as consequências de nossos próprios atos
E o caos reina 
tirânico.

Nós nos esquecemos de quem somos.

Podemos pedir perdão
Podemos pedir o dom da lembrança
Podemos pedir força
Mas ainda não estamos prontos para recordar
ainda não estamos prontos para mudar
ainda não estamos prontos para deixar de lado as banalidades que nos trouxeram a esse ponto de destruição.

Então afirmamos em um sussurro quase inaudível:
Que nós possamos nos lembrar de quem somos

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Essa herança da qual tento fugir, mas inevitavelmente será entregue a mim

Eu tentei fugir tentei com todas as minhas forças.
Não toquei a caneta, ou o papel, ou o bloco de notas do celular.
Mas falhei.
Resolvi escrever sob pena de enlouquecer caso não o fizesse.
E não digo enlouquecer no bom sentido.
Me refiro a coisas ruins.
Coisas ruins.
Estou ouvindo a mesma música pela décima segunda vez. Vamos lá.
Sempre me espanto com o rumo o qual as coisas da vida podem tomar.
Em como cavamos abismos com nossos próprios pés e mãos.
Isso não é bem um texto. Se está procurando uma poesia de amor, pule este texto e talvez encontre algo mais a frente.
Afinal, é assim que vivemos a vida, caminhamos para ver o que há mais a frente.
Minha mente se encontra momentaneamente inundada de ansiedade,
um passo de cada vez, é o que devemos repetir até cair no sono.
É realmente evitável tentar decifrar o próximo passo antes que seja dado?
ou é apenas mais uma daquelas coisas abstratas e inatingíveis que colocamos como objetivo?
Mas aqui estou, aqui estamos.
O que vamos herdar de cada momento?

terça-feira, 15 de maio de 2018

Reflexo idealista

Enquanto nos olhamos no espelho e não reconhecemos o que vemos, talvez não por não nos conhecermos o bastante, nem por termos mudado, mas por esperarmos ver algo que não somos nós. 
Algo que é construído nessa realidade imensa, algo que construímos baseados no que nos disseram que era correto. 
Quem somos nós frente ao que idealizamos como nós? 
Quando tudo já foi escrito, eu me pergunto, o que nos resta?
Talvez sejamos isso, talvez sejamos algo mais. 
Talvez não devessemos nos limitar ao que o mundo espera ou a imagem que nós tomamos como objetivo a ser atingido. 
Talvez esse objetivo possa ser caminho, mas não fim.
Nunca o fim. 
Porque somos bem mais do que tudo isso. 
Somos um mundo inteiro esperando ser descoberto - e com ser descoberto me refiro especialmente a auto descoberta.
Somos almas selvagens ansiando pelo instante em que serão libertas. 
Que saem a  noite, 
ao redor de uma fogueira, 
dançando na floresta.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Fragmento

Aqui estou, aqui estamos. 
Nessa busca incessante por algo que nem sabemos se algum dia iremos encontrar.
O porque da felicidade ser um objetivo de vida, é uma coisa elementar.
O motivo de não nos darmos conta de que talvez ela não passe de uma ilusão a qual nunca alcançaremos, somente em pequenas doses nas quais nos agarramos desesperadamente.

Isso sim é peculiar.

É como provar amostras grátis de um produto incrível sem nunca encontrar o produto em si para comprar.
Matamos e morremos por isso.
Vivemos por isso.

Então se vivemos por uma ilusão, seria a nossa vida também nada além de uma ilusão?
Construída sobre os corpos e o sangue que a vida derrama sobre a terra.
E um dia, seremos tijolos na construção.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Essa tempestade forte que me incita o instinto

Essa chuva me embala, e me leva inconscientemente. 
Antes que eu perceba, já é tarde demais, estou absorta na leitura dos textos de Bukowski, ou agarrada à caneta e ao papel deixando as palavras tomarem conta de mim enquanto eu tomo conta delas.
Esse som de chuva, chuvisco, temporal, atemporal.
Parece durar eternamente.
E eu sou grata por isso.
A energia falhou, e somente me ilumina o corpo nu a luz cálida e tímida de uma vela velha, perdida e achada na terceira gaveta da cômoda empoeirada, em frente a qual concebo agora.
Nesse sábado a noite, 
deve ter algo errado comigo.
Deveria ter percebido quando escrevi um livro inteiro, e apaguei. 
Ou muito antes disso.
Na verdade acho que eu sempre soube.
Mas tudo bem.
Tudo bem.
Ela continua a me chamar, cada vez mais perto,
E então as amarras que me seguram se soltam, e eu corro assim como estou em direção às gotas frias da chuva.
No mais puro instinto.
As gotas são frias, mas tão sublimes que são incapazes de causar qualquer desconforto.
Então eu caminho descalça e despida na chuva fria que cai sobre a minha pele quente mas não tão quente assim,
E danço enquanto sinto minha alma saltar e se libertar
Nada mais vai lhe prender, digo à ela,
E tudo bem.
Tudo bem.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cari Abaçaí

Nós sabemos o que nos faria bem,
sabemos bem.
Mas desde o período do homem sobre os bichos, do homem sobre a mata
do homem sobre o homem
desde que nossos antepassados foram arrancados de suas terras e escravizados,
desde que correr nu e descalço se tornou uma ofensa contra a ridícula
moral europeia
e o respeito à mãe Terra se torno tão dispensável quanto o amor é hoje.
(considerando que antes disso fosse, ao menos, um pouco diferente)
não temos a menor chance contra o mundo,
contra essa realidade dura que nos molda porque não somos tão duros quanto ela.
e ser moldado não é fácil,
é doloroso
ríspido
intragável
inevitável
O mais fraco sucumbe, e
nesse caso
somos
nós.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Venha comigo fazer algo mesmo que não seja novo

Crie algo hoje, mesmo que seja uma droga.
Eu li isso hoje e me deixou em dúvida.
Eu já criei tantas coisas menos ou mais importantes, mas todos os dias temos que criar mais.
O que nos cerca nessa rua vazia com essa luz que pisca porque deve estar com algum defeito.
E me encontro no escuro agora, somente a lua a me iluminar, e eu poderia dançar no escuro sob a luz da lua, mas continuo deitada nessa terra fria e ao mesmo tempo tão aconchegante.
Quando eu era criança passava mais tempo em cima de árvores do que dentro de casa. Eu poderia subir em uma árvore, mas mantenho meus pés bem firmes no chão.
Quando é que eu vou subir em árvores de novo?

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Trânsito. Trânsito. Trânsito
Placas. Placas. Placas.
No trânsito temos placas que nos dizem quais direções tomar e quais não tomar e o que fazer ou deixar de fazer
Mas mesmo assim causamos acidentes no trânsito.
E na nossa vida, que não tem placas que nos guiam?
Nós humanos tivemos alguma chance desde o início?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Nem sempre ficamos com os amores de nossas vidas. 
E dói, sabia?
Dói e sufoca como se tivesse uma criança gorda sentada no nosso peito. 
Quando você encontra algo que encaixa em você melhor do se seu suéter favorito, aquela pessoa que faz com que você passe por cima de todas as suas dúvidas e tenha certeza com os olhos fechados. Quando por algum motivo ocorre uma falha e as coisas começam a desmoronar, 
dói. 
Dói pelo passado de memórias intrínsecas em nossas mentes, 
dói pelo presente que nos corta e sangra, 
mas dói mais ainda pelo futuro de promessas e planos e ideias que não poderão ultrapassar a barreira do mundo ideal para o mundo real, ficando presas como memórias inexistentes de um futuro desencantador. 

Dói por tudo que ainda não foi vivido. 
Dói por deixar escapar como areia seca entre os dedos uma felicidade tão plena que é quase inacreditável. 
Dói pelo medo de nunca conseguir deixar para trás, medo dessas memórias nunca encontrarem conforto se não algum alívio nas pequenas brechas da poesia. 
E eu digo, você é minha memória inconsolável, feita de pedra e sombra, é daí que tudo nasce, e dança.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Palavras ao vento

Vamos correr e andar como se nada mais houvesse nesse mundo que estala como lenha na fogueira.
Então me diga, o que haveremos de fazer, o que nós podemos fazer, o que fazemos além de falar e gritar como a madeira estalando no fogo alto que queima rápido, e queima até virar cinza.
Assim como as nossas palavras viram cinzas,
Assim como nós somos grãos de areia espalhados em ventania,
seria natural, então, que nossas palavras não passassem de pó,
Pó tóxico que a realidade assopra na nossa cara.
Que nos arde os olhos,
Que nos intoxica os pulmões,
Que nos consome a carne.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Falenas que aqui habitam

Nem todo jardim tem flores...


Ela caminha de forma decidida, move seu corpo como uma serpente, pra lá, pra cá. Nos seus olhos, até mesmo os mais astutos encontraram dificuldade de penetrar e encontrar o que guardam.

Sua mente, inviolável.

seu corpo naquele vestido vermelho com aquela meia calça rasgada, desconcerta quem olha.

Seu olhar de desprezo varre as ruas.

Você diz que só quer se divertir, mas eu sei, meu bem, você está tentando fugir.

Mas tudo bem, você consegue enganar os outros, mas não a si mesma, não é? Por mais que você tente, sua mente não deixa. Mas está tudo certo, enquanto tiver uma garrafa de absinto, ou de qualquer vodka barata que encontrou no posto de gasolina.

O álcool entorpece e você gira e gira e não pensa. Eu sei quem você é. Eu sei como é.

Enquanto você finge que é isso mesmo o que quer, teus segredos estão sendo desvendados.

um.a.um.

Você se lembra tão claramente daquela noite, não é? Quando aquele líquido vermelho escorreu do teu pulso pelo corte que você mesma fez.

Mas fique calma, meu bem, agora você foge do silêncio do teu apartamento, com medo que isso se repita.

Ninguém ouviu seu grito contido naquele dia em que você deitou, olhou para o lado e viu um líquido vermelho fluindo por uma abertura imaginária. Quase esquizofrênica. Mas você pensou naquilo por dias. Alguns diriam que você precisa de terapia, mas você acha que álcool é o bastante.

Você observa a moça das flores e a inveja por ter perspectiva, seria muito mais fácil, não?

Entre as luzes noturnas, da lua e da rua e do bar.

ela passeia pela noite.

E pela manhã,

nem mesmo se houvesse silencio,

ouviria-se os soluços contidos de desespero.

...mas alguns tem


Ela vive em meio ao caos, um jardim do mal. Na busca pela sobrevivência, e puramente sobrevivência, ela, como único ponto de luz de uma ilha inteira escurecida, se encarde com a sujeira dos demais. 

Ela carrega flores, nas mãos, nos lábios, nos olhos.

A noite é longa e pesada, o barulho dos carros, as luzes e as cantadas de bêbados nauseantes.

Mas se torna ainda pior quando eles tocam sua pele suave com aquelas mãos imundas de rua e malícia.

A dúvida permeia cada contato, as más intenções nunca ficam visíveis até que seja tarde. E aí, bom, é tarde.

A inveja a consome quando vê alguém que gosta do que faz. A moça de vestido vermelho em seu prazer habitual. Ah como você também queria gosta não é? Tornaria muita coisa tão mais fácil.

O mundo fode com você, e você fode com ele. Mas a esperança te mantém viva, ao menos em corpo.

Ela passeia pela noite.

E pela manhã,

nem mesmo se houvesse silencio,

ouviria-se os soluços contidos de desespero.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Devaneios em praça pública


Me vem algo, como se fosse um texto se escrevendo sozinho na minha mente e eu ignoro todas as normas de pontuação e erros ortográficos para não perdê-lo de vista, 
corrijo depois.
Algo definitivamente não esta certo, minha memória falha em me mostrar o que, mas eu sei, eu sinto.
A alegria não pode durar, não foi feita para isso, a felicidade também não.
E só para deixar registrado, reafirmo, a vida te leva alto só para te mostrar o quão dura pode ser a queda e o quão baixo você pode cair.
Mando mensagens aleatórias, aguardo uma resposta.
Meus dedos se movem sobre o teclado e eu sinto falta da caneta.
A tinta passando de forma permanente na folha de papel 
branca ou parda.
Acho que gostamos tanto da era digital porque é tão fácil escrever e
Apagar,
E depois fingir que 
nada aconteceu.
Escrevi um livro quase inteiro
E o deletei;
Foi tão fácil quanto piscar.
É fácil corrigir os erros quando digitamos e apagamos caso não fique como queremos, 
E podemos começar tudo de novo.
Desfazer um erro e refazer.
Ctrl z é o comando mais maravilhoso que há, e a maioria concorda.
Talvez porque não haja um ctrl z na vida e então manifestamos esse desejo no meio digital mais próximo.
E é por isso que dessa vez eu não vou apagar nem uma linha do que escrevi em meio a este 
devaneio sentada em uma praça no 
centro da cidade.
Talvez pareça a página de um diário, ou um relato desnecessário, mas Bukowski me ensinou a escrever 
para mim e do meu jeito. 
Porque alguma coisa nessa vida tem que ser 
para mim e do meu jeito, 
engano meu pensar que controlo as palavras que minha alma vomita, mas serve, por enquanto serve.
Quero fumar, deus, como queria acender um cigarro e fumar até o fim.
Mas mesmo para isso sou covarde demais, tenho medo de viciar, e nunca mais conseguir parar.
Tenho um pavor da ideia de depender das coisas, de algo ou de alguém.
Engraçado ser justamente esse um dos males que me acometeram,
Só para esfregar na minha cara que eu não consigo controlar nem mesmo minha vida, ou a mim mesma, e isso lá é jeito de enfrentar nossos medos?
Os medos são uma coisa peculiar.
Eles nos revestem e depois 
se vestem com a nossa 
pele.
Um pouco de ar fresco faz bem, 
tolice pensar em fumar se eu nem ao menos consigo 
respirar quando alguém está 
fumando.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Rascunho qualquer sobre a conexão humana

É isso que nós queremos, nos conectar.
É por isso que gritamos e clamamos.
Uma conexão.
Algo que nos tire desse ciclo de tédio.
Alguém com quem possamos gritar nossos desejos repentinos e aleatórios,
com quem possamos falar algo íntimo e sermos compreendidos.
Alguém para quem possamos expor aquela parte que arranha no nosso mais íntimo ser, aquela pessoa que somos, com todos os aspectos de uma personalidade ocultada pela rotina e pelas expectativas alheias, aquele ser selvagem que habita em nós e que grita para ser libertado,
E libertar sem nos sentirmos vulneráveis, incompreendidos.
Alguém que não precise de todas aquelas formalidades.
Alguém cuja alma grite de volta quando a nossa alma grita.
Alguém que só grite de volta.
Ou sussurre de volta.
Alguém que entenda as palavras, as linhas e as páginas que somos em nós mesmos, mesmo nos momentos mais líricos ou mais confusos.
Para sentirmos que não estamos sozinhos nessa realidade fria.
O ser humano e sua busca incessante pela conexão.
Alguém que nos leia como o livro multi interpretativo e subscrito que somos.
Nós, artistas, escritores, consciências, pedaços espalhados, humanos, só e tão humanos.

terça-feira, 21 de março de 2017

Chove chuva

E esta chuva dourada e prateada que cai pela janela
e eu corro lá fora na esperança de que carregue embora
todos os males. 
Essas gotas diagonais
irregulares
que beijam a minha pele com um toque frio e agradável.
E os raios do sol ou a lua ou as estrelas as atingem e nos fazem reluzir.
Guarda chuva parece palavra blasfema.
E você se aproxima e rodopia comigo.
E ela leva também os conflitos e tristezas.
 O toque da tua pele enquanto as gotas caem me arrepiam a pele.
Esta chuva,
chuvisco,
temporal,
atemporal.
Escorre pelo meu corpo enquanto você me molha onde a chuva
não vai.

Pasárgada

Vamo-nos embora para Pasárgada, então.
Se me permitir ser tua companhia, me aprumarei pra fazer alegria.
Podemos encontrar um lugar bem bonito,
fazer um ninho,
virar passarinho,
voar pelo céu.
Mas já que você tem medo de altura, podemos virar outra coisa,
nadar sob as águas ou andar sobre a terra.
Ou continuar assim e fazer os três. Mas só olhar para o céu.
Ver o pôr e o nascer do sol,
as estrelas e a lua
sob o nosso céu. 
Sobre a nossa terra, 
ou a nossa água

E se toda obra de arte é uma imitação da natureza, você é certamente a coisa mais próxima dela.



sábado, 11 de março de 2017

Cidade das luzes

Pela fresta da cortina, nas luzes da cidade,
prédios,
casas,
apartamentos,
bares,
restaurantes.
as luzes acendem e
apagam,
enquanto as pessoas entram e
saem.
A pior parte de morar na cidade é não conseguir ver as estrelas,
e a absurda impossibilidade de se
encontrar um bosque seguro e agradável.
Não,
a pior parte é aquela onde as luzes não se
acendem e se
apagam,
onde as pessoas não
entram,
comem
bebem e
saem,
nos becos escuros onde
brilha e dança uma flor vermelha,
pobres moribundos tentam aquecer as
mãos para evitar que seus membros padeçam,
se encolhem nos cantos em busca de abrigo do frio,
mas alguns dias não são de tanta sorte,
e quando chove, a água leva consigo a singela chama,
e com ela a última esperança de uma
noite cálida.
Mas lá em cima as luzes continuam
acendendo e
apagando,
e as pessoas,
entrando e
saindo.
E ninguém percebeu o fogo se
apagando.
e nunca mais
acendendo.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Garotas calmas e limpas em vestidos de algodão

Sempre conheci pessoas problemáticas, loucas e abusivas
vejo homens com mulheres calmas e
gentis - vejo-os caminhando juntos na rua,
sentados no banco de uma praça qualquer
demonstrando felicidade plena e paz,
sei que essa paz
é apenas parcial, superficial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.
com intervalos imensos de uma busca incessante pela felicidade em uma vida que tem sempre dois caminhos. Nem sempre algum dos dois caminhos leva fim esperado, desejado. 
Mas é o que dizem, a caminhada, por vezes, propicia mais que o próprio fim.


Sempre conheci pessoas mentirosas, manipuladoras, egoístas e negativas
que se alternam frequentemente:

quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.

vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em  
vestidos de algodão.

garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras. 
Que não querem arrancar nada de ninguém. 
Que não querem ferir ninguém.
"nunca traga uma pessoa problemática junto com você", eu digo para meus

poucos amigos, "eu me apaixonarei por ela."
"você não consegue suportar uma boa pessoa, Leticia".


Preciso de uma boa mulher. Preciso de uma boa mulher.

mais mais do que da música que me sonda os ouvidos e me tira de mim. mais do que da escuridão que me embala ou da luz que me acalenta. 
Mais do que escrever. Mais do que rodopiar no bosque ou fazer estrelas

e eu a tenho, e posso senti-la
na ponta dos dedos, enquanto ela toca piano no meu corpo
e eu consigo ouvir cada nota tocada dessa melodia
posso sentir seus loopings verterem por meus dedos
posso vê-la lendo minha poesia
posso sentir seu olhar sobre o meu e sobre mim
enquanto eu durmo acalentada em seu peito
posso vê-la observando nosso céu
posso vê-la dormir, enquanto eu canto para lhe afastar os pesadelos,
Posso ouvi-la quando me chama para deitar do seu lado, quando canta pr'eu me acalmar, ou quando liga só pra dizer "Você é o amor da minha existência, vou te casar comigo, te amo, minha vida"
posso ver tuas roupas no chão, e sua também busca pela paz e pela felicidade


eu sei que ela existe, porque eu a tenho

Caso contrário, não sei se acreditaria.
Mas por vezes me pego pensando, até quando a terei
até quando permanecerei,
Enquanto seu passado continua presente.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

"For us, eating and being eaten belong to the terrible secret of love. We love only the person we can eat. The person we hate we ‘can’t swallow.’ That one makes us vomit. Even our friends are inedible. If we were asked to dig into our friend’s flesh we would be disgusted. The person we love we dream only of eating. That is, we slide down that razor’s edge of ambivalence.
The story of torment itself is a very beautiful one. Because loving is wanting and being able to eat up and yet to stop at the boundary. And there, at the tiniest beat between springing and stopping, in rushes fear. The spring is already in mid-air. The heart stops. The heart takes off again. Everything in love is oriented towards this absorption.

At the same time real love is a don’t-touch, yet still an almost-touching. Tact itself: a phantom touching.


Eat me up, my love, or else I’m going to eat you up.


Fear of eating, fear of the edible, fear on the part of the one of them who feels loved, desired, who wants to be loved, desired, who desires to be desired, who knows there is no greater proof of love than the other’s appetite, who is dying to be eaten up, who says or doesn’t say, but who signifies: I beg you, eat me up. Want me down to the marrow. And yet manage it so as to keep me alive. But I often turn about or compromise, because I know that you won’t eat me up, in the end, and I urge you: bite me.


Sign my death with your teeth"


- H.C.